Para o médico sanitarista e psiquiatra Alfredo Chechtman, coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde, a política de saúde mental do SUS nos últimos 15 anos foi centrada no aumento da desconstrução de um modelo referido exclusivamente à internação hospitalar pelas constatações das limitações desse modelo, da impossibilidade de universalização do atendimento focado nesse modelo e, conseqüentemente a isso, pela expansão de uma rede de base territorial, comunitária que propiciasse maior acesso, maior sensibilidade no tratamento sem perda de vínculos sociais, porque com isso se teria maior qualificação técnica da própria assistência.
Sobre a crítica ao modelo hospitalar, desdobrando-o para a questão do comportamento e da visão tradicional, às vezes e ainda arcaica, de grande parte dos psiquiatras no País, Alfredo Chechtman afirma que se houve um avanço, uma mudança desse pensamento - porque se não houver a mudança desse pensamento não haverá uma redefinição dos modelos, dos critérios e dos princípios de atuação desses psiquiatras - muito do trabalho poderá ficar prejudicado. “Sem dúvida o modelo depende dos profissionais da saúde, especificamente os psiquiatras, para ser bem-sucedido.”
O coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde explica que os psiquiatras vêm de uma formação tradicional, que não os ajuda a se encontrar num trabalho de equipe e tem que se requalificar para esse trabalho. “Hoje se verifica que tem psiquiatras extremamente à vontade nesse trabalho, que é um desafio, e há outros que têm dificuldade de sair daquele papel tradicional, rígido, para se encontrar na equipe. Mas acredito se nós tormarmos como exemplo o congresso de psiquiatria há 15 anos e um congresso hoje, e os temas que são discutidos, é inegável que com todas as resistências isso é um campo de debates e conflitos que se dá no dia-a-dia, se nós tomarmos o que é debatido atualmente num congresso e o que foi debatido há 15 anos, nós vemos que a presença dessa rede de atenção, dessa novidade, também está nos congressos e também vai estar presente na formação desses profissionais.”, esclarece.
EXPANSÃO
Com a adesão dos estados e dos municípios para a implantação dos CAPS, Alfredo Chechtman considera que o processo de expansão da rede extra-hospitalar é irreversível e já alcançou a marca de 800 unidades com a implantação do CAPS de São José da Tapera, no Sertão alagoano. “Está comprovado que esse é um modelo que leva saúde mental para perto de onde mora o cidadão e de onde ele também padece o transtorno, diverso daquele modelo tradicional que existiu por muito tempo, em que alguém quando tinha qualquer problema, era levado para a capital, perdia seus vínculos, era isolado. Se no transtorno mental a vida de relação da pessoa está comprometida, ao isolá-la aquele comprometimento só pode se agravar. Então, na medida em que temos uma rede que se distribui mais igualitariamente pelo País, acho que esse é o sucesso não só do Ministério da Saúde, do SUS e da cidadania brasileira.”
O acesso dos doentes de transtornos mentais ao tratamento diferenciado nos CAPS favoreceu a redução de leitos no país. Alfredo Cherchman estima que cerca de 300 mil pessoas têm a possibilidade do acesso ao tratamento. “Antes, há 15 anos, havia cerca de 90 mil leitos, ocupados pelas mesmas pessoas que se cronificavam e se repetiam, ocasionando o acesso muito baixo. A rede ampliou o atendimento de 50 a 100 mil pessoas ano para em torno de 300 a 400 mil pessoas ano, com a possibilidade de acesso ao tratamento da saúde mental mais qualificado. Portanto, há uma redução dos internamentos e a melhora da qualidade de vida dessas pessoas.”
Rosalvo Acioli