30 de Julho de 2010

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Programa de controle da filariose em Maceió é referência internacional
Rosalvo Acioli   
Pesquisa realizada pelo professor Gilberto Pontes tem repercussão no país e no exterior


Iniciado em 1990 pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o projeto de controle da filariose, implantado em Maceió, alcançou resultados excelentes, projeção nacional e internacional, e proporcionou a criação do “Programa de Eliminação da Filariose Linfática em Maceió” em 1999, oferecendo suporte para o Programa de Eliminação da Filariose Linfática no Brasil, proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Coordenado pelos bioquímicos Gilberto Pontes e Eliana Maria Maurício da Rocha, professores da UFAL, o programa prossegue atualmente em fase de vigilância epidemiológica. Gilberto Pontes relata ao Comunidades o trabalho desenvolvido na realização do programa que foi importante para a criação do mestrado em Ciências da Saúde na UFAL e convites para palestras e consultorias em instituições nacionais e internacionais.

- Como se iniciou, se desenvolveu e o que se concluiu com a pesquisa sobre a filariose?

- Em 1990 a filariose era tida como uma doença não existente em Maceió. Mas na década de 1950 foi feito um grande inquérito no País pelo médico René Rachou e colaboradores, e Maceió era uma das cidades que tinham a transmissão da filariose. Em 1985 o governo federal considerava que pouquíssimos focos ainda restavam no País e que o foco de Maceió já estava eliminado. Mas em 1990, estudo realizado em conjunto pela Universidade Federal de Alagoas, a SUCAM, com o professor Geraldo Vergetti - que era seu coordenador local - e pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz em Recife, tendo a frente a professora doutora Gerusa Dreyer, teve como objetivo reavaliar a cidade de Maceió que não apresentava, oficialmente, mais nenhum foco da doença. Então encontramos o modelo de amostragem que foi estudar os soldados do Exército do 59 Batalhão de Infantaria Motorizado de Maceió, e de 750 soldados examinados nós encontramos dois parasitados. Eram pessoas que tinham o parasita da filariose, que é um verme chamado Wuchereria bancrofti e que estava nos vasos sangüíneos desses dois soldados. Fomos na casa deles e encontramos uma terceira pessoa infectada. Eles não dispunham de melhores condições econômicas e jamais tinham migrado do bairro do Jacintinho e de Maceió.
 
- Que providências foram tomadas a partir da constatação da incidência da filariose no Jacintinho?

- Isso desencandeou um amplo estudo em Maceió e fomos examinar toda a cidade através de amostragem. No início examinamos dez mil escolares noturnos e encontramos 77 infectados. Até então era uma doença tida como não existente. E começamos todo um processo e que há dezenove anos está sendo trabalhado ininterruptamente no programa da filariose. Encontramos na primeira fase a existência da doença e também dificuldades porque os próprios médicos da cidade achavam que a doença não existia e era difícil mostrar e sensibilizar hospitais para os pleitos, e nós conseguimos. Em 1997, o governo federal considerando a necessidade da eliminação dessa doença e com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização PanAmericana da Saúde (OPAS), criou o programa de eliminação da filariose no Brasil, o qual tivemos a honra de participar da elaboração e execução. E em 1999 esse programa foi implantado de vez em Maceió, com o auxílio, naquela época, da Secretaria Municipal de Saúde de Maceió. Não tínhamos mais a SUCAM que por mudanças políticas havia sido fundida com a CESP. Naquele momento tínhamos a FUNASA, que se juntou com a Universidade Federal de Alagoas e a Secretaria Municipal de Saúde de Maceió para desenvolver em 1999 um trabalho e combater a doença. Nós verificamos que os casos de filariose em Maceió estavam restritos não somente ao  bairro do Feitosa, do Jacintinho e do Pitanguinha, e que ao longo do tempo, com os estudos, fomos verificando que a doença e o grande número de pacientes se encontravam ao longo do canal do Reginaldo. Então nós tivemos a felicidade de descrever o foco em Maceió, que era muito concentrado e pontual, e isso tinha uma importância econômica na hora de fazer um programa de controle porque se gastaria menos e não precisava acompanhar toda a cidade, mas uma parte.

- Quantos infectados haviam ao longo do canal do Reginaldo?

- Encontramos em torno de mil pessoas parasitadas e a grande maioria ainda não apresentava sintomas da elefantíase, mas já apresentavam inchaços de membros, e nessa fase a doença ainda é curável. Às vezes a pessoa não apresentava sintoma nenhum, mas tinha o parasita no sangue e podia transmitir pelos mosquitos e apresentar focos da transmissão. Nesses anos todos, nós fomos tratando e acompanhando as pessoas parasitadas em suas casas durante doze dias, para saber se estavam tomando a medicação. Depois, de seis em seis meses, os pacientes eram reavaliados clinicamente e laboratorialmente. Nós só liberavamos o paciente após dois anos em que os exames tinham resultado negativo. Isso foi um ponto muito importante nesse Programa de controle porque não estava combatendo o mosquito, porque o saneamento básico é caro e nós sabemos por dados do IBGE que somente 27% da cidade é saneada. Há em Maceió uma população muito grande de mosquistos, há áreas com mais mosquitos que no bairro do Reginaldo, mas sabemos que não existe a transmissão nessas áreas porque não tem humanos parasitados. Então, com o tratamento, nós fomos esgotando as fontes de infecção, de transmissão, que são os humanos. E mesmo não fazendo melhoria drástica do saneamento básico, conseguimos combater a transmissão da filariose em Maceió. Os números de parasitados foram decrescendo, sendo que, na década de 1990, nós tínhamos 5% da população da área do Feitosa e do Reginaldo parasitados. Todos foram tratados e essa redução de percentual de parasitados foi caindo até 0,05% em 2003. O último ano em que encontramos parasitados foi em 2004. Nesse ano, de dez mil examinados na região do Feitosa, só encontramos quatros pessoas parasitadas. Em 2005, 2006, 2007 e 2008, apesar do grande número de exames que realizamos, não foram encontradas pessoas parasitadas.

- Atualmente, que o programa está cuidando?
 
- Estamos com vários projetos em andamento, não só buscando a avaliação humana, mas também mosquitos transmissores. Hoje dispomos de técnicas modernas de diagnósticos através de PCR, identificando o DNA do parasita, e conseguimos observar se nas áreas em que suspeitamos a possibilidade de incidência da filariose, se os mosquitos que capturamos estão parasitados e transmitindo a doença. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde montaram um laboratório especial para fazermos esse tipo de exame na UFAL. Além de Maceió, nós fazemos a análise do PCR dos mosquitos das cidades de Belém, de Salvador e de algumas cidades do país que já tiveram foco de transmissão de filariose e também acompanhamos a eliminação da filariose nessas cidades. O programa é grande, a Universidade Federal de Alagoas cresceu muito nesse tempo também, e nós nunca paramos com mudança de governos. Hoje, em Maceió, estamos concluindo vários dados para buscar na OMS o certificado de eliminação da doença na cidade. Isso tem uma importância grande na saúde da população. Se a doença é tratada a tempo, é curável. Nós mostramos isso ao longo desses vinte anos. Outra importância é no segmento econômico. Já que Maceió vive do turismo, se existe uma doença severa como é a elefantíase, a filariose linfática, que se não é tratada, não tem cura, a divulgação da doença na Internet, nos meios de comunicação, espanta o turista. Por outro lado se a doença não existe mais, foi eliminada, e isso é divulgado, claro que os turistas vão ter mais tranqüilidade de vir a Maceió para conhecer as belas praias e a hospitalidade do alagoano.

- O projeto ampliou-se e conquistou novos benefícios?

- Hoje conseguimos montar um mestrado em Ciências da Saúde na UFAL, que não havia, e se tornou o primeiro mestrado no Estado de Alagoas na área da saúde. Obtivemos o credenciamento pela CAPES e já estamos na terceira turma. E uma das principais fontes de pesquisa no atual mestrado é o projeto da filariose. Outro ponto importante é que com o sucesso desse programa nós passamos a ter um apoio muito grande da OMS. No Brasil, o foco de Belém foi eliminado. Nós participamos do programa durante cinco anos, acompanhando os trabalhos de pesquisa e de avaliação. Em Maceió, estamos agora em 2008 no quarto ano sem nenhum caso de transmissão. O único foco ativo de filariose no Brasil encontra-se em Recife, em Olinda, em Jaboatão dos Guararapes e em Paulista. Estas são as quatro  cidades do Brasil onde ainda ocorrem a transmissão da doença. Como a bandeira da OMS é a eliminação da filariose no mundo até 2020, com certeza o Brasil estará atingindo essa meta. Assim, ainda temos 12 anos para eliminar os focos existentes como os de Pernambuco. Isso é muito gratificante e tem nos levado a participar, desde 2002 da eliminação da filariose nas Américas. Nós temos colaborado com o Haiti, com a República Dominicana, com a Guiana, com a Costa Rica e Trinidad Tobago, que são países onde ainda há transmissão da filariose. No caso do Haiti, a situação é muito mais severa que em nosso país. Nós temos treinado pessoas, técnicos, e participado de programas visando a eliminação da doença. É muito importante o que nós temos visto nas Américas e com certeza todas as Américas estarão livres da filariose até 2020. Portanto, os países que têm filariose nas Américas são sete: Brasil, República Dominicana, Haiti, Guiana, Trinidad Tobago, Costa Rica e Suriname. Desses sete, três estão em vigilância e não têm transmissão há alguns anos: Suriname, Costa Rica e Trinidad Tobago. Os quatro países onde ocorrem transmissão são o Haiti, a República Dominicana, o Brasil e a Guiana. O Brasil está muito perto da eliminação, através do foco de Pernambuco.

- Como está a repercussão desse trabalho?

- O trabalho feito nesses vinte anos nos levou a adquirir muita experiência e um aprendizado constante. Ele serve, hoje, como base de interação da Universidade, que forma médicos, biólogos, nutricionistas, farmacêuticos e bioquímicos e pessoal da saúde, com os serviços de saúde que atendem a população. A OMS valoriza muito essa interação e nos apóia. Os estudantes desenvolvem pesquisa há muito tempo, se formam, outros vão chegando, e essa experiência de levar o conhecimento da Universidade à comunidade, a prefeitura, ao Estado, e aos órgãos públicos como a FUNASA, continua. Isso é fantástico porque você melhora a qualidade das informações e da vida da população. Então, esse projeto, essa interação tem sido muito valorizada pelos técnicos da OMS e nós temos levado essa experiência inclusive a outros países. Nós temos sempre o apoio da OMS e vários artigos nossos sobre o assunto são publicados em revistas científicas médicas internacionais e periódicos nos EUA, na Inglaterra e em outros país, tendo repercussão mundial. Vários desses trabalhos estão também disponíveis na Internet, divulgando e valorizando a ciência e a cultura, como a pesquisa da filariose em Maceió.


Rosalvo Acioli

Fonte: Comunidades


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