05 de Setembro de 2010

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O romance Dunas, de Breno Rocha Accioly, julgado por Octavio de Faria
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Escritor Breno Rocha Accioly, considerado um dos melhores contistas da literatura brasileira e universal


Mesmo sem esconder que a natureza de Breno Accioly me parece ser, essencialmente, a de um contista  dos maiores, sem dúvida, que tivemos até hoje, não hesito em afirmar que, com Dunas, é em pleno terreno do romance que o jovem autor desdobrou as suas tendas. Trata-se de um romance de grande envergadura. E, convém salientar logo, um romance que fixa para o seu autor uma posição absolutamente original, “suigeneris” no quadro do nosso romance contemporâneo. Por mais que procure, não vejo como classificá-lo. Nem de quem o aproximar, sem forçar por demais os limites do razoável. Pois se, de um lado, tudo o distancia de um Lucio Cardoso ou de um Cornelio Penna, de uma Clarisse Lispector ou de um Adonias Filho, também não é possível, por outro lado, aproximá-lo de um José Lins do Rêgo ou de um Jorge Amado, ou até mesmo de um Graciliano Ramos  talvez, se procurarmos bem, o seu parente menos distante. O “mundo poético” em que evoluem seus personagens é um mundo onde dificilmente penetram os nossos romancistas (exceção feita de Clarisse Lispector  num plano, aliás, completamente diferente do seu), quase todos eles presos, no mais das vêzes, às exigências psicológicas ou sociais da realidade imediata. Dunas é a odisséia de um homem escravizado às recordações de um passado de irremovíveis infortúnios, de um passado que as incontroláveis visões da perdição e do espancamento de Fabíola, da gestação e morte de Bernadete, da partida de Isabel, da profecia do Professor Antero, da morte do jóquei, do enlouquecimento de Wenceslau, da tentativa de linchamento do Promotor, transformam num inferno vivo, agrilhoando-o para sempre à sua invencível solidão. E ele próprio o confessa: “Sou um homem, morto pelas visões”. Tumultuosas e descontroladas, ácidas e avassaladoras, elas o acometem, elas o derrubam, elas o destroem - e, contra elas, nada pode porque seu coração, “preguiçosamente batendo”, se encontra “completamente estorricado” e ele mesmo se compara “a um rio desviado de seu curso, a um poço entupido de calhaus”. Quais fúrias lançadas contra o seu destino, elas o escravizaram, arrancando-lhe até mesmo a capacidade de chorar. “Se eu pudesse chorar estaria salvo” confessa, ao terminar a sua história. Impossível, porém. É que, nesse instante, em Sigismundo da Rocha, “pensamentos de um tamanho descomunal vêm chegando, vêm chegando ainda imagens áridas e ao mesmo tempo imóveis como dunas. Não tem jeito. Sou um homem morto pelas visões”. Tragado pelas dunas, tendo perdido Fabiola e Bernadete, incapaz de reter Isabel e de se comover ante a tragédia do Promotor, na verdade o que Sigismundo da Rocha faz, ao nos relatar a sua vida, é contar, em linguagem de fogo e lava, como foi devorado pelas Fúrias. Um romance sinistro, abismal. Depoimento de alguém que desacreditou de todos e de tudo, para crer apenas em si mesmo e no absoluto da Arte? Ou simples reconstituição de um mundo negro, atravessado em pesadelo, e que se procura a todo pano esquecer? Não sei. Nem minha intenção aqui é falar do possível itinerário espiritual de Breno Accioly... Pretendo, apenas, chamar a atenção para o livro grande e estranho que nos deu, e no qual me parece se nos ter dado êle próprio em tôda a sua autenticidade e sinceridade. Livro rico de uma seiva tumultuosa, aqui e ali excessiva (penso na inutilidade de certas palavras por demais pesadas, penso na facilidade de certas “evocações”...), mas certamente das mais valiosas e legítimas com que conta a nossa literatura.


Octavio de Faria, romancista (1908-1980), filho do escritor Alberto de Faria e cunhado de Afrânio Peixoto e Alceu Amoroso Lima, em 1927 inicia sua colaboração em A Ordem, órgão do centro D. Vital e em Literatura, revista dirigida por Augusto Frederico Schmidt, onde fez crítica literária de cinema.

Em 1928, ingressou na faculdade Nacional de Direito, mas nunca exerceu a advocacia, preferindo consagrar-se a literatura. Estreou em 1931, com Maquiavel e o Brasil, estudo político, e publicou depois Destino do Socialismo (1933) e Dois Poetas (1935), sobre Schmidt e Vinícius de Moraes, dando início à sua atividade de crítico e ensaísta.
Octavio de Faria foi membro da Academia Brasileira de Letras, na qual integrou a cadeira nº 27.


NOTAS

Breno Accioly (1921-1966) dedicou o romance Dunas a Orris Soares, tio-avô do humorista, comediante e dramaturgo Jô Soares.

Dunas (romance) - Edições O Cruzeiro - 1955, Rio de Janeiro - 1ª Edição (capa de Arcindo Madeira).


OBRAS PUBLICADAS

João Urso (Contos) - Prêmio Affonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, e Graça Aranha, da Fundação Graça Aranha.

Cogumelos (Contos).

Maria Pudim (Contos) - Livro dedicado a Matilde, sua mulher (ex-mulher do escritor Jorge Amado).

Dunas (Romance).

Os Cata-ventos (Contos).



Informações sobre Breno Accioly - E-mail: rommel.accioly@terra.com.br

Fonte: Comunidades


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