Por duas vezes consecutivas, os concursos literários do Prêmio Nacional Pontes de Miranda e do Prêmio Nacional Aurélio Buarque de Holanda, promovidos pela Academia Alagoana de Letras com o patrocínio da Braskem, foram arrebatados pelo escritor alagoano Marcos Vasconcelos Filho, dedicado estudioso da literatura que vem despontando no meio literário alagoano. As obras premiadas, os ensaios “Ao piar das corujas” e “marulheiro: viagem através de Aurélio Buarque de Holanda”, são a sua gestação analítica e intelectual mais recente, resultado de intenso trabalho de pesquisa sobre documentos e livros, ampliando a sua bibliografia com as características exponenciais de quem domina o fazer literário com gosto estético apurado.
Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGA), Marcos Vasconcelos Filho concedeu entrevista exclusiva ao Comunidades sobre os ensaios premiados e acerca da sua atividade de pesquisador e escritor.
- Pela segunda vez consecutiva, você conquistou o prêmio do concurso instituído pela Academia Alagoana de Letras, com os ensaios sobre Pontes de Miranda e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Quem lhe proporcionou mais entusiasmo, surpresa e encantamento?
- Do ensaio “Ao piar das corujas: uma compreensão do pensamento de Pontes de Miranda” (2006), escrito em pouco mais de quinze dias, até ao quase despedido da prensa (e assim mesmo em suas minúsculas anagramatísticas) “marulheiro: viagem através de Aurélio Buarque de Holanda”, escrito em pouco mais dum mês, foi progressivo o entusiasmo em mim. Não me faltou, nestas duas tentativas ensaísticas, o gosto pelo genuinamente alagoano. No que seria desnecessário, logo se vê, dizer da importância de mestres Pontes e Aurélio. Ambos me entusiasmaram pela própria particularidade de cada qual.
- Que experiência adquiriu ao pesquisar as vidas e as obras desses dois grandes alagoanos, principalmente Aurélio, com informações escassas?
- À paciência de pesquisador nalguma coisa perfeccionista juntou-se o gosto do não sei se escritor de mim. Porque para mim não há escritura criadora sem pesquisa disciplinada. Há uma década, aos quinze anos, mais menino ainda, portanto, lembro, ao escrever meu primeiro livro e ainda inédito volume sobre médicos, odontólogos e farmacêuticos alagoanos de formação baiana a contar dos anos 1920, haver-me perguntado por que já não mais surgem os cânones ou os exemplos de mestres e criativos homens e mulheres pioneiros de cultura tão amassada qual a nossa: a alagoana. Isto me inquieta ainda, sabe?! Particularmente, Pontes e Aurélio são dois cânones alagoanos. E o mais belo e intrigante é que são muitíssimos os modelos de alagoanos merecendo-se revisitados - e mesmo descobertos ainda. Porém cânones em estimulações menos míticas que homens - sem abandono do misticamente homens - de carne e de ossos, suando e cansando sobre livros, ainda que movidos assim de energia poderosa - e curiosa.Rediscuti Pontes menos biográfica - como até então era comum - que bibliograficamente. E de Aurélio fiz recolher pela vez primeira, em jornais e revistas quase que se indo de tão desgastados, vinte e mais algumas poesias suas; como também analisei a sua atividade múltipla de cronista, contista, professor, orador, até o dicionarista, esta que é apenas a mais evidenciada de suas faces.
- Para a sua formação de ensaísta, o que resultou da elaboração e da premiação das obras de Pontes de Miranda e de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira?
- Estranhara em mim a particularidade de cada um dos dois ensaios aqui dialogados serem quase de todo opostos pra obras de um mesmo autor. O primeiro dos ensaios nos veio em conteúdo mais hermético nos seus assuntos filosóficos, antropossociológicos, científico-políticos, juspositivos, matemáticos, físico-químicos e só de quando em vez sugerindo maior literariedade. O segundo é muito mais de meu gosto como ensaística, porque o literário e menos acadêmico permitiu-me então saciar um pouco a inclinação pela prosa poética mais livre, em discurso nalguma coisa “de decote”: mais sugerir, insinuar, inquietar que mesmo mostrar, exatificar, explicitar. Um seduzir permanente. Daí que concluí por um contentamento certo da complementaridade destes autores, que estavam, qual muitos estão, quase a pedir também “mais de um” autor para temas assim por vezes tão contraditórios e extensos: o bloco conceitual pontemirandiano e o discurso e a ficção aurelianos.
- Qual projeto está realizando?
- Após já uma década de estudos, dos quinze aos vinte e cinco completados quase agora, iniciou-se há meses nova concentração: mais aguda tentativa de intuição das coisas alagoanas e, claro, também não tão-somente alagoanas, porque é preciso prender-se ao universalismo de qualquer intuição, ainda que esta seja muitíssimo movida pelo subjetivismo de nossos gostos. Sigo dedicando-me particularmente a fichar material raro de velhos jornais maceioenses e de muitos dos de interiores alagoanos. Visito famílias pra recolher material virgem ainda e pra rememorações. Leituras: trabalho exaustivo, mas persistente e continuadamente - e isso sem dúvidas – excitante e silencioso. E, a acompanhar o fichamento, obviamente, o levantamento o mais completo possível de assuntos centrais e de fontes para a compreensão da riqueza cultural das Alagoas principalmente. Já há alguns anos tracei planos de obras que somente em longo prazo poderão tomar forma e ser reveladas, porque fusionam temas por vezes contraditórios e amplíssimos ao se quererem mais próximos do fotográfico e do artístico em suas preocupações: ver o pano de fundo, a intimidade de tempos relativizados de nosso passado fixado e autenticamente nosso. Fundamento e agradabilidade ao leitor nem sempre andaram juntos a ser ofertados.
Rosalvo Acioli